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SEXO NO DIVÃ

19/04/2008 (11:52) atualizada em 19/04/2008 (17:24)
Marcos Dias
João Alvarez | Ag. A TARDE



"Quando uma mulher se apaixona, ela tende a centralizar a vida no homem"
Lêda Guimarães não teme polêmicas. Na opinião da diretora do Instituto de Psicanálise da Bahia, a guerra entre os sexos ficou mais complexa. Para sobreviver no mundo capitalista, as mulheres abrem mão da paixão. Para permanecer ao lado delas, os homens abrem mão da virilidade. O casal heterossexual contemporâneo anda dormindo em maus lençóis. “A nova mulher apresenta as múltiplas faces de profissional realizada, politizada e culta, administradora do lar, mãe psicologizada, malhadora diet e amante liberada", enumera. O fruto dessa reflexão está no seu artigo "Não se apaixone - A histeria contemporânea e o declínio do viril", que será publicado neste semestre na revista argentina ”Analítica del Litoral“. Nesta entrevista, com base em mais de 20 anos de prática psicanalítica, Leda fala sobre relações amorosas, poder e homossexualidade: “Eu considero que muitas homossexualidades masculinas são, na verdade, heterossexualidades enrustidas, pois é muito difícil lidar com as mulheres".

No fim do século passado, falou-se que a depressão era uma epidemia mundial e atingiria mais mulheres que homens. Dentro dessa perspectiva, de certa forma, isso se deve à negação da paixão?

Com certeza. Porque uma mulher pode brilhar em vários aspectos, mas a experimentação de se sentir plena como mulher é pela paixão, através de um homem que ela ame e deseje. Se isso falta, o que fica é uma aridez, uma ausência de se experimentar como mulher.O que mudou nos relacionamentos heterossexuais, a partir do atual estágio da sociedade capitalista, em que consumo , tecnologia e informação é que estão casados?É um modo de relação com grande oferta de objetos de consumo que dão satisfação imediata e a ilusão de que podemos estar sempre satisfeitos. Permite que o sujeito se coloque numa posição mais passiva, de menos ferocidade em relação à vida e rodeado de objetos gozosos.

Elas são impregnadas de mecanismos para buscar satisfação imediata. Por exemplo, "eu fico com fulano enquanto me der prazer. Se começar a complicar, eu deleto".Nesse fast-food sexual, você associa o comportamento gerado pelas conquistas do feminismo com a negação da paixão.As mulheres criaram uma máscara para a feminilidade, que é uma máscara fálica. Junto disso, o axioma "não se apaixone" é uma defesa extraordinária. Quando uma mulher se apaixona, ela tende a centralizar a vida no homem.Mas isso não subordina a mulher, digamos, a um “senhor”?Vou dizer uma coisa que é inconfessável: a fantasia mais secreta que as mulheres nutrem é a de encontrar o seu "senhor", que mande e desmande nelas. As mulheres falam dessa fantasia, mas no campo sexual. Dizem: "Quero um homem que faça de mim o que quiser". Porém, há uma certa tendência de ir além do sexual e de quase entregar o próprio ser nas mãos do “senhor”. E de que forma o homem está lidando com essas transformações?Em relação ao declínio do viril, há um certo boom no que diz respeito à homossexualidade masculina. Existem homossexualidades masculinas. Há muitos homens que têm uma prática homossexual, mas que guardam no íntimo, na verdade, um desejo muito grande pelas mulheres. Há uma dificuldade de enfrentar um laço afetivo com elas. O dito macho da atualidade já não é tão macho assim. O homem vem se fazendo feminino para ser bem recebido pelas mulheres.O boom homossexual, na sua opinião, tem a ver com isso?Tenho visto, até na experiência clínica, uma constatação interessante. Mesmo com toda a dignidade que a homossexualidade tem na atualidade, alguns se dão conta de seu desejo enlouquecido pelas mulheres, e de como fugiam delas como quem foge do êxtase máximo. Eu considero que muitas homossexualidades masculinas são, na verdade, heterossexualidades enrustidas, pois é muito difícil lidar com as mulheres. Muito difícil. Não sei como os homens agüentam. Então, os sobreviventes, que não desistem dessa luta, estão precisando usar essa estratégia: ser feminilizado; para que a mulher suporte a sua presença.No seu artigo, você diz que os homens se tornaram brinquedos dessas mulheres...Nos homens, também há uma fantasia muito comum, passiva, uma fantasia sexual, que é a de encontrar uma mulher que use e abuse dele, que faça dele um capacho. “Pode me bater”. É uma fantasia sexual que livra o homem do caminho da homossexualidade. Eles se deixam ser feminilizados apoiados nessa fantasia. É um modo de se defender a todo custo para não perder a relação. É um modo de se manter como objeto amoroso. Mesmo aviltado?Mesmo aviltado, mas já está virando status quo, e até se está falando com certa dignidade: "Eu sou um homem feminino". Veja como isso mudou, não há esse aspecto do aviltamento. Hoje, o homem se sente digno quando tem ao lado uma mulher poderosa.E a tirania do capital sobre a paixão é igualmente perverso, para homens e mulheres?Ele é mais favorável à paixão dos homens do que à das mulheres. Porque, para ela se manter poderosa e senhora desses apetrechos, o domínio dos objetos capitalistas, tem que amortecer esse impulso. Não é elegante uma mulher dizer que está morrendo de paixão.E o corpo dessa mulher que não se apaixona seria um corpo árido?O corpo feminino, experimentado em seu apogeu de gozo, não fica localizado numa zona, é algo que se espalha e transcende. Isso acontece, fundamentalmente, quando a mulher está apaixonada. Quando não está, as experimentações corporais e até sexuais são um pouco mais ao modo masculino, localizadas em zonas e práticas mais específicas. Você não encontra resistência no movimento feminista ao seu trabalho?Não. É como se elas se sentissem autorizadas por alguém que, de certo modo, é um símbolo da mulher feminista, realizada, profissional, e que está dando licença para ela ser mulher naquilo que é o mais íntimo que ela quer: grudar num homem.Você fala em seu trabalho da "navalha afiada" do sadismo feminista. Isso não é redundantentemente intolerável?Isso aí é algo muito sério, tem a ver com o apogeu dos ditos das mulheres da atualidade. Quem fala verdades são as mulheres. Elas se colocam como porta-vozes, principalmente sobre a subjetividade, sobre como uma relação deve funcionar, sobre como se deve educar as crianças, e que o homem é um zero à esquerda nesses assuntos. Elas propõem discutir a relação, e os homens caem nessa história.Qual o efeito disso nos relacionamentos?É um tiro que sai pela culatra. Porque esse homem vai se “desfalicizando” e ela vai perdendo aquilo que a satisfaria mais: que esse homem se impusesse sobre ela.Essa forma de declínio do viril não ocultaria uma representação em que o masculino permanece com o poder, mas sem as obrigações masculinas tradicionais?Estou dando uma faceta, mas essa que você aponta tem prevalecido bastante, dos homens que sabem se utilizar disso, uma certa vertente cafajeste. Muitos homens são sustentados por mulheres. Elas estão cada vez ganhando mais e virando chefes-de-família. Então, às vezes, eles se deixam ficar numa situação mais fragilizada. Esses homens não estariam apenas preservando, na sua hipótese, o desejo de serem amados por essas mulheres?Mas mantendo um domínio sobre essas mulheres, fazendo-se de dependentes. As mulheres são exímias em falar sobre como existem homens se aproveitando delas. Eu me ocupo mais em tentar suspender o véu do discurso feminista, em que as mulheres se apresentam muito cheias de verdades. Mostrar um pouco essa outra face, esse outro lado, no qual os homens mantêm suas vantagens, o que é muito natural. E as que assumem que podem pagar mesmo, e não vêem qualquer problema em bancar o parceiro?É um discurso de como se elas estivessem no poder. Então, a paixão que elas experimentam fica subliminar. Mesmo as mulheres se defendendo da paixão, não quer dizer que elas consigam ficar sem se apaixonar. Mesmo que muitas digam que não querem casar e ter filhos?Isso é conversa fiada! (risos)

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